Obsessão — O Resultado Final do Apego

Obsessão — O Resultado Final do Apego

O dicionário diz-nos que obsessão é o ato de perseguir diabolicamente alguém ou uma preocupação constante e absorvente. Existem muitos tipos de obsessões. Há quem seja obcecado pela raiva e vingança, há quem o seja pela ambição e desejo. Há quem seja obcecado pelo dinheiro e quem o seja pela vitimização. Uma obsessão pode dirigir-se a algo ou a alguém. Na maioria das vezes, quando alguém é obcecado por algo, mais tarde, torna-se obcecado por alguém. Basta que hajam condições para tal e, normalmente, a vida encarrega-se disso.

Poderia dizer que uma obsessão é a encarnação total do ego. A alma é livre, pois sabe que apenas nos terrenos da liberdade germinam as flores do amor. A obsessão, por sua vez, é prisão. O obcecado está preso na própria mente e, aquilo que sabe fazer, é aprisionar outras pessoas. Uma obsessão é o extremo do apego. Se não nos tornarmos conscientes dos apegos que possuímos, eles transformar-se-ão em obsessões. Uma obsessão é um estado de completa inconsciência. E a inconsciência é perigosa. Significa que nos perdemos de nós mesmos. Quando nos afastamos da nossa essência, não conseguimos escolher o bem, pois não sabemos o que ele significa.

Existe mais apego do que aquilo que acreditamos. Qualquer um de nós se pode tornar num obsessor. Por vezes, somos apegados ao trabalho, à nossa casa, ao nosso dinheiro. Frequentemente, o apego dirige-se a alguém. Somos apegados ao nosso companheiro, aos nossos pais, aos nossos amigos, aos nossos filhos ou irmãos. O apego destrói. Ele acontece quando acreditamos ser algo que não somos. As guerras só existem porque existe apego. As pessoas acreditam ser um território que não são. Uma religião que não são. Um objeto ou imóvel que não são. Sempre que acreditamos que somos ou estamos em mais algum lugar sem ser em nós mesmos: surgem os conflitos, pois surge o apego. Muitos são apegados à companheira ou companheiro porque sentem que estes lhes preenchem um vazio. Ninguém consegue preencher um vazio que existe em nós. Podem camuflá-lo, mas não curá-lo. Acreditam, então, que precisam de outra pessoa para estarem realizados e felizes. Sozinhos não são suficientes e portanto, unem-se falsamente ao outro. Assim se cria a ilusão de que também estamos e vivemos no outro, como se ele fosse uma parte nossa. Então começam os ciúmes e a possessividade. Quão longe pode ir o nosso egoísmo? Não tem mal algum quando vives a tua vida conforme desejas, mas quando queres que o outro viva consoante o que tu desejas, então entraste no campo do egoísmo, do apego e, logo após, da obsessão. Fica atento e liberta-te desses pensamentos e emoções o mais rapidamente possível.

O apego pelo trabalho também é muito frequente. As pessoas começam a acreditar que são o trabalho que fazem. Precisam dele para saberem quem são. Vivem para o trabalho e se o perderem, perdem-se. Acreditam com tanta força que são o trabalho que fazem que se tornam obcecadas por ele. Quando são despedidas ou têm de o abandonar por alguma razão, sentem-se destruídas, arruinadas. A sensação de desorientação é tanta que algumas até se suicidam.

Também há quem tenha apego a doenças. Sim, identificam-se de tal forma com a doença que acreditam que a são. Se lhes tirarmos a doença, não sabem mais quem são. Muitas nem estão realmente doentes, mas agarram-se à voz da mente que lhes diz que sim e encontram conforto na doença. Pelo menos sentem que ela é uma certeza, enquanto tudo o resto é incerto. A confusão mental de certas pessoas é tanta que acabam por encontrar benefícios na doença e nos transtornos, e tornam-se vítimas. Vítimas da família, da sociedade, do mundo. Bem, a verdade é que dá bem menos trabalho ser uma vítima da existência do que assumir a responsabilidade por ela.

A obsessão cega. Ela mata em vida. Uma pessoa obcecada caminha nos trilhos da doença. A mente está doente e o corpo para lá caminha. Um obcecado não conhece o amor. Afastou-se dele por completo. Pode iludir-se de todas as formas, acreditando que os seus gestos e atitudes egoicas são fruto do amor e da compaixão. Não há amor que se manifeste nos territórios do ego. A voz do ego é a voz do medo. A vida e o amor só começam onde o medo acaba. Todos os obcecados escondem um tremendo medo. Têm medo de não serem acolhidos ou aceites. Têm medo da rejeição e do afastamento. Têm medo da solidão e do que acontece no seu próprio mundo interior. Têm medo de perder o controle, pois temem o desconhecido. Vivem com medo e, por isso, não vivem: sobrevivem.

O apego mais perigoso e doentio é o que nos prende a alguém. Muitas pessoas, quando morrem, continuam presas a alguém que ainda vive. A estas pessoas obcecadas dá-se o nome popular de encostos ou obsessores. Estão em profundo sofrimento e desconhecem quem são sem aquela pessoa. Preferem dedicar todo o seu tempo a persegui-la do que a estarem consigo mesmos.

Claro que também existem obsessores encarnados. São estes que se tornam em encostos quando morrem. Somos exatamente os mesmos do outro lado, só a casa muda, não o ser. Há pessoas que vivem absolutamente presas a outras. Passam a maioria dos seus dias preocupadas com o que o outro está a fazer. Perseguem-no, mas acreditam que o amam. Prendem-no, mas acreditam que o libertam. Vivem num mundo ilusório, fruto de uma mente doente e perdida. Quando não conseguem o que querem ou quando as coisas não correm tal como esperavam, tornam-se violentos e agressivos. Impõe ao outro a sua vontade. Muitas vezes, julgam-no, criticam-no e difamam-no. Tudo porque querem ser vistas. Tudo porque são carentes e, no fundo, se sentem inferiores e tentam esconde-lo ocupando um falso lugar de superioridade.

Devemos sentir compaixão pelos que se perderam deles mesmos. Afinal, estão a fazer o melhor que sabem, mesmo que o melhor deles seja lixo. Devemos dar o nosso melhor para nos transformarmos em seres humanos bonitos, amorosos e profundos. Só assim podemos iluminar e resgatar outros corações. Só assim podemos orientar aqueles que se perderam na escuridão. Se estamos mais conscientes, podemos fazer diferente. Espalhar amor é espalhar luz e iluminar caminhos. Devemos sempre fazê-lo.

Se formos o alvo de alguém obcecado, o amor pode manifestar-se através da distância. Se nos afastarmos de quem está obcecado connosco não permitimos que nos faça mal ou que o faça a si próprio. Deixamos de compactuar com as condições necessárias para uma situação de obsessão. A distância não é uma garantia de resolução total, mas é um ato de amor para contigo e para com o outro. É escolher não alimentar nem compactuar com a dor. Como disse Nardine Gordimer: «Eu não posso viver com alguém que não pode viver sem mim». Onde não há respeito, não há possibilidade de construção. A obsessão é o pico do desrespeito.

Somos sempre livres para tomar decisões e alterar o rumo da nossa vida. Não há nada que justifique tolerar faltas de respeito. Só a falta de amor-próprio é que permite que tolerar desrespeito seja uma opção.

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